– Ìrántí Ijìyà –

O comércio transatlântico de escravos terá sido a maior barbaridade da história da humanidade desde que a memória humana foi constituída. Todavia a memória não se deve posicionar nos navios negreiros, nos engenhos, nas senzalas, nas “casas grandes”, nos cais de desembarque. Na realidade a Ìrántí Ijìyà, a “memória do sofrimento”, começa ainda em África, com o início do comércio de escravos originários das invasões e da expansão islâmica sobre os territórios proto-yorùbás. As invasões dos Califados e dos Emirados do norte que culminaram com a Queda de Òyó em 1830 alimentaram sobremaneira o comércio transatlântico fomentando a afirmação da Costa dos Escravos.

Milhares de africanos yorùbás chegaram às Américas acorrentados em navios negreiros, cativos, com a sua identidade roubada. Na Bahia – porto de desembarque por excelência – os yorùbás eram organizados sob a égide da Igreja Católica, cristianizados à força, num novo território, depois de islamizados sob a ameaça da espada ainda em África. Os nomes africanos, espelho da identidade individual, eram convertidos em nomes cristãos, mais adequados à moral vigente, os deuses africanos (Òrìsàs) camuflados e adulterados à força sob a pele de santos católicos, os ritos africanos recalendarizados para caber num mapa festivo católico, os atabaques proibidos de tocar sob a ameaça policial, assentos das divindades e quartos sagrados destruídos, fiéis aprisionados por prática de uma religião distinta. Sangue, lágrimas, violência extrema, expatriação, desenraizamento forçado.

A escravatura destruiu estruturas sociais africanas yorùbás, desenraizou milhares de africanos, aprisionou rainhas, princesas, reis, príncipes, sacerdotes, sacerdotisas. Tornou a religião oficial africana em alvo de perseguição, calúnia, injúrias, proibição, vítima de violência gratuita de guerras santas colonialistas.

Os herdeiros da tradição yorùbá não podem esquecer o sofrimento atroz infligido aos seus antepassados, heróis que a duras penas mantiveram a memória, a tradição e a religião vivas e a souberam legar aos filhos e netos. A Ìrántí Ijìyà é uma dádiva dos antepassados ao presente – lembra-nos permanentemente que a nossa herança chegou até nós pintada de sangue e lágrimas. É nosso dever relembrar permanentemente o sofrimento e honrar os mortos em nome da liberdade de consciência e de culto.

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