Manter a memória yorùbá na diáspora é um exercício complexo de preservação e articulação com os contextos socioculturais e, naturalmente, com a modernidade. A memória do sofrimento, a Ìrántí Ijìyà, fundada sobre a violenta jihad do Califado de Sokotô e do Emirado de Ilorin, e o comércio de escravos e consequente e inerente escravatura, constitui o garante da consciencialização do dever de preservação da memória histórica daqueles que a duras penas mantiveram a sua tradição e tal nos deixaram em herança.

É precisamente essa consciência de que o sofrimento maior ficou para trás — espera-se que a ameça evangélica não se perpétue mas se trate de um produto cultural de curta duração — e que cabe-nos, no presente, o dever de empunhar a bandeira (não prosélita) da nossa crença e dos nossos ancestrais, que está na origem da fundação da CPCY. A CPCY não nasce para controlar, legislar ou registar terreiros de Candomblé, essa é apenas uma atividade menor. A CPCY nasceu com o propósito maior de conseguir que o governo português reconhecesse a tradição religiosa yorùbá (Èsin Ìbílè) e o Candomblé como «religiões», retirando-as da esfera do marginal, do segregado e do esoterismo. Desde janeiro de 2010 que a tradição dos Òrìsàs é oficialmente reconhecida por religião em Portugal, facto que não acontece, a título de exemplo, no Brasil, palco da fundação do Candomblé.

Em dois anos, segundos na história humana, o Candomblé e a Religião Yorùbá saem da marginalidade e inscrevem-se no restrito lote das religiões oficialmente reconhecidas como tal pelo governo português através do estatuto de Pessoa Coletiva Religiosa.

O nosso tempo é agora, e agora preservamos e produzimos memória histórica. Àse.