20 de Novembro de 1695. Zumbi dos Palmares é traído, capturado, assassinado. A sua morte é mais um contributo para a consciência da identidade africana em contraponto à identidade ocidentalizada do Brasil. A memória do sofrimento, que a CPCY cunha como Ìrántí Ijìyà, está profundamente ligada a todo o processo de formação da consciência negra que emerge ainda em África, com o início do comércio de escravos originários das invasões e da expansão islâmica sobre os territórios proto-yorùbás. As invasões dos Califados e dos Emirados do norte que culminaram com a Queda de Òyó em 1830 alimentaram sobremaneira o comércio transatlântico fomentando a afirmação da Costa dos Escravos.

Milhares de africanos yorùbás, fons e, antes deste, bantus, chegaram às Américas acorrentados em navios negreiros, cativos, com a sua identidade roubada. Na Bahia – porto de desembarque por excelência – os yorùbás eram organizados sob a égide da Igreja Católica, cristianizados à força, num novo território, depois de islamizados sob a ameaça da espada ainda em África. Os nomes africanos, espelho da identidade individual, eram convertidos em nomes cristãos, mais adequados à moral vigente, os deuses africanos  camuflados e adulterados à força sob a pele de santos católicos, os ritos africanos recalendarizados para caber num mapa festivo católico, os atabaques proibidos de tocar sob a ameaça policial, assentos das divindades e quartos sagrados destruídos, fiéis aprisionados por prática de uma religião distinta. Sangue, lágrimas, violência extrema, expatriação, desenraizamento forçado.

A escravatura destruiu estruturas sociais africanas, desenraizou milhares de africanos, aprisionou rainhas, princesas, reis, príncipes, sacerdotes, sacerdotisas. Tornou a religião oficial africana em alvo de perseguição, calúnia, injúrias, proibição, vítima de violência gratuita de guerras santas colonialistas.

 No Brasil moderno e contemporâneo e noutras diásporas, a identidade afrodescendente, permaneceu e permanece como alvo de todos os ataques descritos anteriormente. Os praticantes das religiões de matriz africana são alvo dos mais profundos preconceitos, perseguições, violência física e psicológica. O avanço evangélico anti-africano é uma realidade que teima em não ser cortada pela raiz por parte das autoridades legais.
Mas a consciência negra não é domínio apenas dos afrodescendentes. Aliás, muitos deles têm voltado as costas ao sofrimento dos seus antepassados e abraçado as crenças religiosas que condenam e atacam as tradições dos seus antepassados. A consciência negra é de todos os praticantes das religiões de matriz africana, porque nelas eles são negros também.
Os herdeiros da tradição yorùbá e afrodescente lato senso não podem esquecer o sofrimento atroz infligido aos seus antepassados, heróis que a duras penas mantiveram a memória, a tradição e a religião vivas e a souberam legar aos filhos e netos. A Ìrántí Ijìyà é uma dádiva dos antepassados ao presente – lembra-nos permanentemente que a nossa herança chegou até nós pintada de sangue e lágrimas. É nosso dever relembrar permanentemente o sofrimento e honrar os mortos em nome da liberdade de consciência e de culto.