Captura de ecrã 2014-06-26, às 10.03.15.pngO jornal i, publicou hoje uma matéria sobre o Natal segundo as diferentes religiões. Deixamos aqui a transcrição integral da entrevista que nos foi endereçada:

– A V. comunidade acredita e festeja o Natal?

O Natal representa o nascimento de Jesus Cristo, o Salvador para os cristãos. As tradições religiosas africanas Yorùbá-Fon não são devedoras do Cristianismo nem tão-pouco se assumem como salvacionistas. Nesse sentido, nem nessas tradições religiosas nem nas suas descendentes diaspóricas, nomeadamente o Candomblé, se celebra o Natal, pelo menos do ponto de vista oficial. Não obstante, fruto dos encontros com indivíduos cristãos, há famílias que sendo Yorùbá, Fon ou do Candomblé celebram o Natal como momento de família, pese embora o mesmo não ser parte doutrinária e histórica dessas tradições religiosas.

– Festejam da mesma maneira que, por exemplo, os católicos?

No seguimento do dito anteriormente, no Candomblé e nas tradições Yorùbá e Fon não há celebração do Natal, pois não há a crença em Cristo. Em todo o caso cada sujeito é livre de no interior do seu lar e em conjunto com a sua família celebrar a quadra.

– Há alguma tradição específica?

Nesta época não.

– Também trocam presentes, fazem presépios e árvores de Natal?

Cada família define, no seu habitat o modo como age, não contendo contudo uma ligação às nossas tradições mas antes expressando as dimensões sociais e familiares dos indivíduos.

– Há alguma celebração típica desta quadra? Consiste em quê?

Não temos qualquer celebração típica, a não ser na passagem do ano. Nessa altura, seguindo as tradições das cidades africanas de Iró, Idi-Iroko e Mokoloki são ofertados presentes às águas, nomeadamente no mar, agradecendo o ano que finda e pedindo prosperidade, saúde e outras coisas positivas para o ano que inicia.

– O Natal é a festa religiosa mais importante no V. calendário ou há outro momento?

O Natal não é por nós celebrado. Nesse sentido, há outras festividades que assumem plano central como a celebração das Águas de Òòsàálá (Oxalá) que apelam à paz, calma, à fertilidade e à renovação, a celebração para Òsun (Oxum) deusa da fertilidade, da gestação, do amor e da riqueza, entre outras para os diferentes deuses.

– Quantos membros tem, aproximadamente, a V. comunidade?

Em Portugal existem à volta de 500/600 membros do Candomblé (e um número igual ou superior de simpatizantes ou recorrentes pontuais), dispersos por meia centena de templos nem todos devidamente legítimos.

– Caso não festejem e não acreditem no Natal podem explicar porquê?

O Natal é uma celebração cristã que comemora a vinda de Cristo, o Salvador. As nossas tradições sendo africanas não possuem ligação com o universo cultural judaico-cristão, sendo próprias e em muitos casos e aspetos anteriores ao cristianismo. Nós temos os nossos próprios deuses.

– Apesar de não acreditarem, há um esforço para acompanharem algumas tradições que se vivem nesta época? Quais e porquê?

O esforço mais importante que uma comunidade religiosa pode ter, em período festivo de outra confissão, é o do respeito e dos votos de uma celebração plena. O respeito inter-religioso é um caminho para a paz universal, não é preciso que todos acreditem/cultuem a(s) mesma(s) coisa(s), basta que respeitem a dimensão religiosa do outro.